ENSAIO: A FORÇA DO TEMA DEFICIÊNCIA NO MUNDO AUDIOVISUAL

Por Emílio Figuera

No Brasil nossos primeiros registros de filmes sobre pessoas com deficiência são “Feliz Ano Velho” (1987), dirigido por Roberto Gervitz, com Marcos Breda, Malu Mader, Carlos Loffler. Livre adaptação da obra homônima de Marcelo Rubens Paiva, o filme narra a luta de um rapaz para retornar sua vida e vencer o trauma do acidente que o deixou tetraplégico.

Outra produção de destaque é o longa-metragem dos cineastas Walter Carvalho e João Jardim, o documentário “Janela da Alma”, rodado em 2000. Seu pilar de sustentação são os depoimentos, onde as pessoas ouvidas têm problemas de visão, em maior ou menor grau. Hermeto Pascoal, José Saramago, Win Wenders (que, além de cineasta, escreveu o livro “A Arte de Ver”), Marieta Severo, Antônio Cícero, João Ubaldo Ribeiro e Manoel de Barros são alguns dos nomes presentes. Mas também há figuras não tão conhecidas do público, a exemplo de Arnaldo Godoy – um vereador deficiente visual de Belo Horizonte – e do fotógrafo francês Edgar Bavcar que é cego. Cheio de poesia, o filme de Carvalho (um dos melhores fotógrafos brasileiros) e Jardim recorrem ainda a imagens de caráter poético e delicado. “Janela da Alma”, ficou pronto há 10 dias, após quatro anos de trabalho, após 30 horas de gravação e 450 horas de edição. Nesse período, foram ouvidas 43 pessoas, mas apenas 17 aparecem na película. As filmagens percorreram o Brasil, Europa e Estados Unidos.

Meu Pé Esquerdo

O mesmo não se pode dizer do cinema norte-americano, no qual uma infinidade de enredos realistas e depoimentos são produzidos com bons níveis. Deixam claro que, ao pesquisarem subsídios para as produções, nunca exploram o sensacionalismo. São filmes puros, sempre trazendo uma mensagem do otimismo que anima as pessoas ir a luta depois de assistirem as fitas.

Meu Pé Esquerdo
Meu Pé Esquerdo

São inúmeros os exemplos. Iniciaremos com o filme “Meu pé esquerdo” (My Let Foot), do diretor Jim Sheridam, Irlanda, 1989, tendo no papel principal o ator Daniel Day Lewis, Oscar de melhor interpretação em 1990. Lewis fez o personagem Christy Brown, um rapaz com paralisia cerebral, pintor e escritor irlandês, nascido numa família pobre em Deblin, na década de 30 e que se revelou intelectualmente através das telas pintadas com o pé esquerdo, uma das únicas partes do corpo que mantinha certa independência.

Christy, definitivamente, não foi um herói, sendo o que de mais importante o filme a respeito de sua vida nos passa. No decorrer do enredo, por meio do seu próprio esforço pessoal, ele teve quando criança de provar para a sua própria família que o seu impedimento era apenas físico/motor (paralisia cerebral) e não intelectual ou mental, como muitos acreditavam. A certa altura, ao escrever com um giz entre os dedos do pé esquerdo, no chão de sua casa, a palavra “mother” (mãe em inglês), foi reconhecido como alguém que dispunha do seu cérebro para pensar e aprender. Com este gesto – e esforço – ganhou o reconhecimento do pai, que, somente agora, afirmava ser Christy um membro da família Brown.  Talvez, neste momento, o próprio Christy tenha percebido que também podia manifestar as suas emoções.

Seu comportamento era igual a de qualquer pessoa. Fumava e às vezes, bebia um pouco demais. Apaixonou-se pela médica-terapeuta, que nas seções de terapia o abraçava e tocava em seu corpo. Revoltou-se quando, ao manifestar o seu amor, recebeu a recusa da mulher amada. Insultou-a em público… e foi por ela chamado  de canalha! Realmente, naquele momento, ele estava sendo canalha…

No geral, “Meu pé esquerdo” mostra, sem nenhum sensacionalismo, o retrato da paralisia cerebral. Se notado mais profundamente no filme, vamos chegar a conclusão que, apesar de Christy Brown ter vivido algumas décadas atrás, ainda é grande a desinformação e as imagens erradas que ainda hoje, em pleno o Século XXI, a população têm referentes às pessoas com paralisia cerebral.

The New York Times

Experiências pessoais também renderam bons filmes. Neal Jimenez, já era um roteirista americano famoso, quando, em 1984, ficou definitivamente paraplégico após uma fratura de pescoço ocorrida durante um acampamento. Baseado em sua experiência, ele escreveu e co-dirigiu com Michael Steinberg, em 1991, o filme “The Waterdance” (algo como “A dança das águas”). Construído de forma bastante segura, o roteiro aborda o intenso programa de terapia física e psicológica a que o próprio Neal teve que se submeter durante os muitos meses passados em um centro de reabilitação. Na trama principal do filme, o elenco foi encabeçado por Eric Stoltz, no papel de Joel Garcia, um jovem e bem-sucedido escritor, que na época de seu acidente, encontra-se emocionalmente envolvido com Anna (Helen Hunt), uma mulher casada. Mas muitos outros detalhes e personagens entram no enredo.

downloadO grande marco de “The Waterdance”, foi uma crítica elogiosa publicada em maio de 1992, no jornal “The New York Times”, assinada por Vincent Canby, o qual considerou o filme ótimo, rodado em grande parte na enfermaria de um hospital, pungente em alguns momentos, mas sem pretender mostrar nada mais do que a capacidade de ser humano de triunfar sobre as adversidades que lhe são impostas pela vida. Após vários trechos de seu artigo, Canby finalizou dizendo: “O exato significado do título do filme não fica explícito, mas, aparentemente, se refere à miraculosa autoconfiança exigida desses paraplégicos de quiserem sobreviver e manter a sua sanidade: é como dançar sobre a água. O filme é notável tanto pelo anticlimax que consegue evitar, quanto por seu senso comum consistente e seu bom humor levado a sério”.

Outros filmes focalizando as temáticas das deficiências podem ser brevemente resenhados neste artigo: “Mentes que Brilham” (Litlle Man Tate), EUA, 1989, dirigido por Jodie Foster. Tendo no elenco a própria Foster, Dianne Wiest, Adam Hann-Byrd, o enredo conta a história de uma jovem operária, mãe solteira de uma criança que se revela superdotada, tendo como inspiração a própria história de Jodie, a qual foi uma criança-prodígio, enfrentando muitos desafios em sua vida, tais com aceitação e no filme o pequeno também encontra muitos problemas a enfrentar.

Considerado um dos belíssimos filmes feitos por John Woo quando ele trabalhava em Hong Kong, “Rajadas de fogo” (título original Onde a Thief, 1991, tendo no elenco Chow Yun-Fat, Lesile Cheung e Cherie Chung), três ladrões – sendo um usuário de cadeira de rodas, sem nenhum estereótipo de dependência -, decidem dar um último e retumbante golpe, roubando obras de arte na Rivera Francesa, mas nem tudo sai como esperavam.

Em “Nós sempre o amaremos” (No Chid of Mine, EUA, 1993, direção de Michael Katieman, com Paty Duke, Tracy Nelson e Markus Flanagen), pais pobres entregam para adoção seus filhos gêmeos, que nasceram com graves problemas de saúde, sendo um  cardíaco e o outro portador da síndrome de Down; mas a avó, não gostando da atitude, resolve lutar pela guarda das crianças.

Entrando um pouco no campo de AIDS, o cinema produziu o excelente Filadélfia (EUA, 1993, direção Jonathan Demme, com Tom Hanks), um filme que denuncia a discriminação sofrida por um advogado demitido de conceituado escritório em que trabalhava por ser portador sintomático do HIV.

Citamos também “A filha de Ryan” (Ryan’s Daughter), do diretor David Lean, filmado na Inglaterra em 1970. Na pequena cidade de Kirrary(1916), o professor Shaughnessy (Robert Mitchum) se apaixona por Rose Ryan (Sarah Miles), a filha de Thomas Ryan (Leo McKem), o dono da taberna local. Eles casam, mas a diferença de idade de 20 anos entre ambos é apenas um dos problemas que atrapalham a união. Quando chega à aldeia um novo comandante da guarnição do exército inglês, o jovem major Doryan (Christophet Jones), ele e Rose (a qual tem uma deficiência auditiva) iniciam um romance, tumultuado por uma série de acontecimentos que ocorrem na cidade, além do grande ódio dos habitantes aos soldados ingleses.

filmes_9767_cake16Temos também “Uma razão para viver”, (A Test of Love), Austrália, 1984. Dirigido por Gil Braaley, o filme tem em seu elenco Angela Funch McGregor, Drew Forsythe, Wallas Eston.  Por um erro de diagnóstico, vítima de paralisia cerebral é enviada a instituição para doentes mentais. Uma professora (McGregor) descobre o erro e tenta repará-lo. Conquistando o prêmio principal do Festival de Cannes em 2000, há o filme “Dançando do Escuro”, dirigido por Lars von Trier, com participação especial da cantora Bjork.

Puxando um pouco da memória há exemplo de citação, sem maiores detalhamentos, temos em mente “Uma janela para o céu”, história de uma esquiadora que fica paraplégica em um acidente numa competição, tornando-se professora e lutando pelo seu amor; “Byu”, história de um senhor com deficiência mental que encontra em um cineasta todo um apoio; “O milagre de uma mãe”, história de uma mulher que adota, cria e descobre o talento musical em um paralítico cerebral; “Gaby, uma história de amor”, narrando a vida de uma moça também com paralisia cerebral; Filme: “Dançando no Escuro”, do diretor Lars Von Triers – Atriz – Björk. “Simples como amar”, filme que narra a história de Carla, uma jovem com deficiência intelectual leve que depois de anos e anos em escola especial descobre um novo mundo; sua mãe, cedendo aos apelos das outras filhas e do marido e acaba concordando que Carla frequente uma escola inclusiva para os “ditos normais” juntamente com as  pessoas com alguma deficiência. Carla em sua nova escola conhece Dany, também portadora de deficiência, porém independente, trabalha que mora sozinha. Nessa fita fica a mensagem de como essa mãe deve aprender com a filha a conviver com as diferenças e a respeitá-la.

Em rápidas citações e sem maiores detalhamentos, também existem os seguintes filmes  que abordam tais deficiências: “A força de um campeão”, física; “À primeira vista”, deficiência visual, do diretor americano Irwyn Winkler; “Além dos meus olhos”, visual; “Amargo regresso”, paraplegia; “Amy”, visual e auditiva; “Anne Sulivan”, auditiva e visual; “Carne trêmula”, física; “Desafio sem limites”, paraplegia e deficiência visual; “Gilbert Grape – Aprendiz de sonhador”, mental; “Meu filho meu mundo”, autismo; “Mr. Holland – Adorável professor”, auditiva; “Nell”, autismo; “Nicky and Gino”, mental; “O óleo de Lorenzo”, física; “O piano”, auditiva; “George, o oitavo dia”, síndrome de Down; “O Silêncio”, visual e auditiva, “Perfume de mulher”, visual; “A canhotinha”, deficiência física; “O domador de Cavalos”, deficiência física e “Castelos de Gelo”, deficiência sensorial.

A Força do Oscar

Sobretudo, filmes que falam sobre as deficiências sempre foram bem acolhidos, demonstrando ter grande força na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Em 1989, o ator Dustin Hoffman ganhou o Oscar interpretando o autista do filme “Rain Man”. Daniel  Day-Lewis, em “Meu pé esquerdo”, foi premiado concorrendo com o favorito de 1990, “Nascido em 4 de julho”, onde Tom Cruise vivia um personagem mutilado na Guerra do Vietnã. “Forrest Gump – O Contador de Histórias” (Direção de Robert Zemickis, papel principal Tom Hanks), abordando a temática da deficiência mental,  ganhador de um Oscar em 1995. Vencedor do Oscar de melhor documentário em 2000, o filme “King Gimp” (intitulado “Rei Coragem” no Brasil), narra a história, lutas e vitórias de um jovem com paralisia cerebral, Dan Keplinger, e sua trajetória até ser consagrado como um artista plástico; com o roteiro escrito pelo próprio Dan, foram de 12 anos de filmagens por dois cineastas, Susan Hannah Hadary e William Whiteford.

Nascido Em 4 de Julho
Nascido Em 4 de Julho

Papéis de soldados e pessoas vítimas de guerras sempre foram os mais premiados na história da Academia, como o cego de Arthur Kennedy em “Só Resta a Lembrança” (1951) e o paralítico de Jon Voight em “Amargo Regresso” (1978), ambos premiados como atores principais, e Harold Russel, que realmente perdera as duas mãos em batalha, como coadjuvante em “Os Melhores Anos de Nossas Vidas” (1946). Além de “Rain Man”, apenas um papel de deficiente mental já levou o Oscar – o de Cliff Roberson, ator em “Os Dois Mundos de Charly” (1968).

Entre as atrizes, uma feliz coincidência recaiu sobre a escolha de três personagens surdas. Como atrizes principais, ganharam Marlee Matlin (deficiente auditiva de verdade) em “Os Filhos do Silêncio” (1986), e a deficiente auditiva surda e muda de Jane Wyman em “Belinda” (1948). Como coadjuvante, venceu em 1962 a menina cega e surda que Patty Duke  interpretou em “O Milagre de Anne Sullivan” – o mesmo filme deu o troféu principal  para Anne Bancroft, que fazia a professora responsável pelo tratamento da jovem.

Nos últimos anos filmes que abordam os mais variados tipos de deficiências se multiplicaram tanto no cinema nacionais quanto no internacional. Agora é só pesquisar, selecionar e assistir!