“TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO” É LANÇADO EM VERSÃO ACESSÍVEL PARA ESPECTADORES CEGOS

Nessa sexta-feira, dia 29 de Julho, a Filmes Que Voam lançará gratuitamente  em seu portal o filme “Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro” na versão em audiodescrição, destinada ao público cego e a pessoas com deficiência visual. Em breve também lançaremos a versão do filme na Libras – Língua Brasileira dos Sinais.  A  Zazen Produções, detentora dos direitos de exibição do filme, cedeu os direitos à Filmes Que Voam para distribuição gratuita na internet das versões em Libras e Audiodescrição. Trata-se de uma iniciativa inédita no Brasil, que busca estimular as produtoras e distribuidoras a democratizar o acesso de seus filmes aos espectadores com deficiência.

Dirigido por José Padilha, o filme foi grande sucesso de bilheteria na época  de sue laçamentos nas salas comerciais de cinema.  Esta sequência de “Tropa de Elite”, também dirigida por Padilha, continua a narrativa de Nascimento (Wagner Moura), agora coronel, que é afastado do BOPE por conta de uma mal sucedida operação e vai parar na inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Ele descobre que o sistema que tanto combate é mais podre do que imagina.  Seus problemas só aumentam, porque o filho, Rafael (Pedro Van Held), tornou-se adolescente, Rosane (Maria Ribeiro) não é mais sua esposa e seu arqui-inimigo, Fraga (Irandhir Santos), ocupa posição de destaque no seio de sua família.

A Filmes Que Voam é especializada na prestação de serviços de acessibilidade para os mercados audiovisual e de educação, e conta com colaboradores especializados e consultores, incluindo consultores cegos e surdos nas equipes de trabalho.  Nossa roteirista da audiodescrição, Mônica Magnani fala a seguir sobre os desafios do desenvolvimento da versão acessível de um filme aclamado pelo público e a crítica.

Monica Magnani, roterista da versão em audiodescrição

Monica Magnani, roterista da versão em audiodescrição

“Nos filmes, a audiodescrição acontece nas brechas sem fala e descreve ações, cenários, e características dos personagens, ou seja, traduz as informações visuais importantes ao entendimento das cenas para o público com deficiência visual. Tropa de Elite2 é filme de ação; um policial eletrizante. Recheado de cenas de violência nua e crua, exibe muitas ações simultâneas, algumas intercaladas, e outras delicadas, retratando relações familiares. Mas tudo é muito rápido, literalmente num piscar e olhos. E o olhar do roteirista deve ser certeiro. Deve buscar compreender o filme como um todo e pinçar os elementos visuais mais significativos que proporcionem uma leitura lógica, coesa, coerente, fluida e fluente da obra.  Suas escolhas sintáticas e lexicais devem reconstituir, em palavras, a mesma carga imagética, acompanhando todas as curvaturas das cenas. O ritmo da cena deve guiar o ritmo do roteiro, para que se atinja a fruição da obra. Sob esse aspecto, a melhor estratégia para vencer desafios impostos por este, e por qualquer tipo de filme, reside na parceria e boa sintonia com o consultor, pois será ele quem dirá ao roteirista se as escolhas feitas de fato preenchem as lacunas e constroem as imagens na mente do espectador com deficiência visual. Destacamos dois momentos que refletem dilemas básicos de todo trabalho:

  1.     Nem sempre é possível informar tudo. Principalmente em filmes de ação!

Por exemplo, em uma das cenas finais, Rocha está sentado no sofá do iate, a roupa ensanguentada, morto com um tiro na testa. Não há tempo hábil para informar tudo isto. Então optamos apenas por dizer que “no iate, Rocha está morto”.

  1.     Via de regra a audiodescrição segue diretrizes básicas que informam o “quando”, “onde”, “quem” e “como”, partindo, assim, do geral para o específico.  Mas também é desejável que se tenha sincronismo entre imagem e descrição.

A cena do depoimento de Nascimento em uma Comissão de Inquérito instaura um momento de escolha, diante da importância do movimento da câmera em uma cena. A câmera traduz o olhar do diretor, a forma como ele pensou a cena e o impacto que deseja causar. É o que chamamos de “estética da obra”, e também deve ser respeitado. Nesta cena, o esperado seria descrever do geral para o específico. Indagada pela consultora porque não agi dessa forma, expliquei que a tomada inicial ocorre em plano médio, com foco apenas no “quem” e no “como”, ou seja, em Nascimento sério, de terno, diante de um microfone. Aos poucos, a câmera “abre”, se distancia e começa a “passear” pelo ambiente, revelando onde Nascimento está, com quem e em quais circunstâncias. Desta forma, optamos por respeitar a sincronia entre imagem e descrição, aqui instaurada pelo movimento da câmera, dizendo que “Sério, Nascimento está de terno e gravata diante de um microfone. Ele está em uma tribuna, no plenário da Câmara e Fraga preside a sessão”.

Por fim, vale destacar que cada cena terá sua particularidade e seu desafio para ser descrita a contento; um bom audiodescritor é um observador ativo, que enxerga o mundo com grande acuidade e edita o que vê, priorizando a informação mais relevante à compreensão e apreciação de um evento; e a audiodescrição é trabalho de equipe, que exige estudo, prática e conhecimento do que se faz, como se faz e para quem se faz.”